A característica mais importante da liderança contemporânea

Desafios atuais pedem novas atuações

Por Paulo Martinez

Quando pensamos em transformação e inovação — sejam culturais, sociais, ambientais, políticas ou nos negócios — temos na figura da liderança sua base intencional. É ela que guia estratégias e planos de ação, influenciando profundamente a direção em que avançamos. Grandes lideranças, ao longo da história, foram reconhecidas por quebrar paradigmas e deixar legados que transcendem suas épocas. Esses legados não se restringem apenas ao âmbito empresarial, mas permeiam a estrutura social e cultural de maneira duradoura.

Navegando na internet e nas redes sociais, encontramos um sem-número de conteúdos, cursos e dicas de como se comportar como um “grande líder”, tais como: acordar às 5 da manhã, ler um livro por semana, vestir roupas iguais para poupar energia mental, perseguir a alta performance, dominar técnicas de negociação e persuasão ou criar negócios exponenciais com foco obsessivo nos clientes e na superação dos concorrentes. Essa cartilha predominante, carrega um senso de urgência exacerbado e uma energia de competitividade.

Mas será que performance e competição são as reais características da liderança transformadora? Proponho aqui um caminho inverso: o de acalmar. Vamos respirar fundo e meditar no contexto que habitamos. Vivemos tempos que clamam por qualidades mais profundas, e estamos tão ansiosos — tão agarrados às velhas máximas do sucesso material, do poder e da influência — que deixamos de enxergar a verdadeira chave da transformação. Fomos treinados e educados assim: na cultura de “ser melhor que o outro”, onde conquistar e defender territórios produz líderes fortes, performáticos e incisivos, com resposta e solução para tudo. Uma narrativa de “quem quer ser bilionário”¹, que nos conduz a uma guerra de todos contra todos².

Inteligência não é sabedoria

Não é no individualismo, na truculência e na desunião que enfrentaremos os desafios complexos do nosso tempo; sejam eles ambientais, sociais, políticos ou econômicos. Os problemas que nos cercam não conhecem fronteiras geográficas, raciais, de gênero ou crença. São questões transfronteiriças e transgeracionais. Precisamos de líderes que compreendam a urgência de dissolver velhos apegos, ampliar a percepção de mundo e, sobretudo, mudar do paradigma do Ego para o Eco, considerando a interdependência entre todos os seres. É nessa virada de chave que emerge o conceito fundamental desta reflexão.

Altruísmo: A pedra fundamental da liderança regenerativa

Quando penso em lideranças verdadeiramente inspiradoras e transformadoras, as imagens que me ocorrem não se limitam a grandes empresários ou estadistas. Recordo-me de lideranças sociais e espirituais, cujos legados atravessaram séculos ou milênios. Não pretendo personificar aqui nenhum nome em particular, mas destacar a característica comum a tais líderes: o altruísmo.

Altruísmo é um conceito que se refere à preocupação genuína pelo bem-estar coletivo. É a disposição de agir em benefício de outras pessoas, acima dos próprios interesses. A palavra tem origem no francês altruisme, que foi popularizada pelo filósofo Auguste Comte³. Sua raiz é autre, significando "outro" em francês, que deriva do latim alter, com o mesmo significado. "Amor espontâneo pelo próximo", segundo o dicionário⁴. Comte definiu altruísmo como a obrigação moral de priorizar o bem alheio sobre interesses pessoais. O oposto de altruísmo é egoísmo.

Trata-se de um padrão mental que rompe o círculo vicioso do “ganha-perde” e instaura uma lógica do “ganha-ganha”. Colocar o bem comum no centro das decisões, torna-se especialmente relevante em um mundo de complexidade crescente, onde as soluções duradouras exigem cooperação, empatia e visão sistêmica.

Vantagens para as organizações

Ao incorporar o altruísmo na liderança, as organizações expandem a geração de valor em aspectos que abarcam não somente a sustentabilidade financeira, mas também a prosperidade sistêmica. Ao atuar com olhar mais amplo, potencializam-se as capacidades de adaptação, inovação e resiliência.

O altruísmo impulsiona práticas regenerativas, relacionamentos mais profundos com stakeholders, produtos e serviços mais relevantes, e uma cultura interna que valoriza cada pessoa em sua integralidade. Esse modo de operar não é apenas moralmente virtuoso, mas também inteligente em um ecossistema global interdependente. Na prática, a liderança altruísta catalisa a inteligência coletiva, rompendo o isolamento competitivo e favorecendo a emergência de soluções interconectadas.

  • Benefícios internos para a organização: Internamente, o altruísmo promove um ambiente de colaboração e diversidade genuína, onde todas as partes se sentem valorizadas e engajadas. Essa liderança empática não apenas estimula a inovação, mas fortalece a capacidade organizacional de adaptar-se e prosperar em cenários incertos. Ao valorizar formas de capital além do financeiro — como social, cultural, experiencial e ambiental — e ao oferecer uma proposta de valor mais ampla, cria-se um espaço em que indivíduos e coletivos se desenvolvam mutuamente.

  • Benefícios externos e mercadológicos: Ao priorizar o bem-estar sistêmico, as organizações maximizam o impacto positivo no mundo a sua volta. Comprometidas com práticas sustentáveis, regenerativas e socialmente responsáveis, elas contribuem para a saúde ambiental e o bem-estar social, sem deixar de lado a prosperidade econômica. Essa abordagem cria conexões culturais profundas com toda a rede envolvida, fomentando parcerias além dos aspectos econômicos e tecnológicos, destravando novas oportunidades de atuação. Os resultados são produtos e serviços mais inovadores, sustentabilidade financeira, relacionamentos sólidos e valorização da reputação (brand equity).

  • Produção de Legado: A confluência de práticas altruístas internas e externas gera um legado humano e cultural que transcende o presente. Ao agir em prol do coletivo, essas organizações e lideranças inspiram futuras gerações a adotar valores de solidariedade e cooperação. Dessa forma, não apenas asseguram sua própria perenidade, mas também pavimentam um caminho mais abundante e próspero para toda a cadeia de stakeholders.

Um caminho de transformação interior

O altruísmo, no entanto, não se manifesta de uma hora para outra. Ele demanda mudança interna profunda, que envolve a desconstrução de padrões enraizados, e a germinação de novas raízes psíquicas e emocionais. Para compreender e mudar o que está fora, é preciso primeiro mergulhar no que está dentro. O conselho “Conhece-te a ti mesmo”, proferida por Sócrates⁵ há milênios, é a base dessa jornada. Segundo os preceitos Herméticos⁶, "a mente pode ser transmutada de estado em estado, de grau em grau (...)", convidando-nos a reavaliar nossa visão de mundo cristalizada.

Por séculos, nos limitamos a uma visão materialista e racionalista, tentando compreender o todo em suas partes fragmentadas. Agora percebemos que a verdadeira compreensão surge das relações, da complexidade holística, e da infinita teia de conexões que nos une. Nesse sentido, o desenvolvimento altruísta da liderança passa, necessariamente, pelo autoconhecimento. Destaco cinco aspectos fundamentais nesse processo.

  1. Auto-Desenvolvimento: Ao me aprimorar, melhoro o mundo ao meu redor;

  2. Auto-Consciência: Compreendendo meu papel integral no universo, vejo além do meu próprio interesse;

  3. Auto-Responsabilidade: Agir a partir da essência e intencionalmente — integrando pensar, sentir e fazer — gera impactos positivos em mim e na sociedade;

  4. Auto-Perdão: Reconhecer que sou a melhor versão de mim agora, aprendendo com erros e experiências em vez de usá-los como âncoras;

  5. Auto-Amor: Só posso oferecer amor verdadeiro se o despertar primeiro internamente. Em paz comigo mesmo, sou capaz de praticar a paz com os demais.

Ao explorar o universo dentro de nós, encontramos um caminho para a verdadeira compreensão do mundo ao nosso redor. Nessa jornada, o altruísmo surge não como um ideal abstrato, mas como uma estratégia fundamental para lidar com a complexidade contemporânea. É um novo paradigma que envolve olhar além do imediatismo e da competitividade cega, abraçando a cooperação, a empatia e o compromisso com um futuro comum.

A liderança contemporânea não se fortalecerá repetindo velhas fórmulas centradas no ego e no acúmulo de poder. Em um mundo marcado pela interdependência e pela necessidade de soluções coletivas, o altruísmo, para além de um valor inspirador, é uma qualidade essencial, um guia capaz de ressignificar a forma como lideramos, inovamos e prosperamos.

Ao adotar o altruísmo, líderes e organizações não estão retrocedendo a um ideal romântico. Estão alinhando-se à realidade de um ecossistema global complexo, entendendo que só avançaremos cooperando e cuidando, uns dos outros e do planeta; e assim, construindo um legado verdadeiramente transformador e duradouro.


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