Novas narrativas serão escritas do ponto de ônibus, ao meio dia

Se quisermos escrever novos futuros, precisamos vivenciar e sentir o território que habitamos.

Por Michele Oliveira

Tem um livro do qual sou fã chamado Smoke Hole (sem tradução no português), do escritor, mitólogo e contador de histórias, Martin Shaw¹. O alerta de Shaw com essa obra  é que, diante de tantos desafios, precisamos estar munidos de boas histórias que nos mantenham despertas para a ruptura, para o novo, para aquilo que precisa ser olhado no macro e no micro. Talvez você conheça a máxima de que olhar uma floresta de dentro é totalmente diferente se a olharmos de cima, em contexto e perspectiva.

Dessa obra-prima atual, compartilho o trecho da história A donzela sem mãos, adaptada e reduzida para justificar o porquê do título deste artigo. 


Era uma vez o dono de um moinho que perambulava pela floresta em busca de comida. O desespero era tanto que andava cada vez mais curvado, próximo ao chão, em busca de qualquer coisa que pudesse servir de alimento, a ele e à sua família. Encontrara umas raízes e estava praticamente deitado no solo, quando se aproxima um homem - baixinho, de nariz proeminente e usando um chapéu que encobre quase todo o rosto. 

— O que você faz aí? Uma pessoa como você que um dia foi tão respeitada, tão admirada na cidade, não devia se sujeitar a tal humilhação de rastejar para encontrar alimento. Estou aqui para propor-lhe um acordo. Ofereço a você tudo que sempre desejou. Toda riqueza material. Uma casa maior e toda equipada, roupas, comida nunca mais lhe faltarão. 

O homem levantou o olhar. O que ouviu parecia irreal. Depois de um tempo, perguntou:

— Mas você quer alguma coisa em troca, certo?

Chegara ao ponto em que o pequeno homem salivava de excitação. 

— Você tem a sua casa, certo?

— Sim. 

— Pois eu quero tudo o que ela tem na parte de trás agora.

O homem refletiu. Atrás da casa havia uma árvore, apenas uma árvore. 

— Ah, você pode ficar com tudo o que estiver lá atrás, sim.

O pequeno homem vai embora e o dono do moinho ouve a esposa chegar correndo e berrando:

— Marido, marido. 

Ela, vestida com os mais caros vestido e sapato. 

— Nossa casa mudou em um segundo, temos torneiras de ouro, a cozinha está cheia de comida. De onde vem tudo isso?

O marido explicou o que tinha acontecido. E pergunta: 

— E a nossa filha, quero que ela celebre este momento com a gente. Cadê ela?

— Ah, você sabe. Ela está lá atrás de casa, brincando no balanço na árvore.


Essa história segue, mas paro por aqui. O que você sente ao lê-la pela primeira vez? Há várias interpretações possíveis, mas a que ressoa em mim é que estamos agindo em nossas relações como o dono do moinho. Tomamos decisões que impactam muitas pessoas e a natureza, sem avaliar as consequências de buscar resultados imediatos e que sustentam os mesmos privilégios, confortos, modos de produção e concepção do que é riqueza/progresso, e que nos trouxeram até esse momento de policrise/permacrise (muitas crises ao mesmo e que seguem). 

Você já se perguntou como um telefone celular, computador, um carro SUV são produzidos? Muitos dos componentes desses objetos são metais preciosos, oriundos de mineração. E por maior que sejam os esforços do setor para mitigar os impactos ambientais e sociais, a atividade de mineração ainda polui rios, lençóis freáticos, peixes, pessoas, usa água em excesso. Sem querer apontar vilões mas buscando ampliar a visão para o que está atrás da casa agora, é importante considerarmos nas nossas estratégias e decisões de consumo se queremos seguir com modelos de produção que se apoiam no uso da terra como uma fornecedora de riqueza infinita ou se buscaremos inovar nas nossas relações, repensando a forma como produzimos, consertamos, reutilizamos, transformamos um produto, sem gerar ou reduzindo ao máximo os resíduos? 

Quando você enxerga o suficiente, você tem que se mover da invisibilidade para a ação. Você ataca.
—Martin Shaw (Smoke Hole)

Quando falo que novas narrativas serão escritas do ponto de ônibus, ao meio-dia, é um chamado para que as pessoas nos governos, nas empresas, diretores, altos executivos, CEOs, equipe de inovação, de novos produtos se disponham a sair às ruas e a enxergar.  Caminhem onde moram, deixem o carro em casa e sintam a vida como vivemos até aqui se transformando - em compostagem. Sintam se é agradável andar numa cidade só com prédios e quase nenhuma árvore, quando os termômetros marcam 40 graus. Ou se é confortável ver sua casa arrastada durante um temporal. Ou se está ok abandonar uma vida, lembranças, sem qualquer aviso, porque há um alerta climático com a possibilidade de inundação, ventos fortes. As soluções e a velocidade para agir diante da urgência climática não virão de salas climatizadas. Nem serão escritas do helicóptero, nem do jatinho. Elas dependem de construirmos novas relações. De pessoas que se sensibilizam porque sabem o que têm atrás de casa. O que significa negociar com a vida de outras pessoas e do planeta.



***
Smoke Hole: De acordo com um mito siberiano, quando você quer machucar alguém, rasteja até a barraca dessa pessoa e fecha a saída de fumaça. Ao fazer isso, você quebra a conexão com o mundo divino: montanhas, rios e árvores.


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Michele é co-fundadora e sócia da Agência Fecunda.É especialista em Novas Narrativas, com estudos sobre visões de mundo pelo Gaia Education. Estudou e voluntariou no Schumacher College (UK) e é formada em Permacultura. Tem experiência em projetos ESG voltados para as temáticas da intergeracionalidade e geração de renda a partir da floresta em pé, no Cerrado. Atuou como jornalista por mais 20 anos em grandes emissoras de TV e também em comunicação empresarial..

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Referências citadas:

  1. Livro Smoke Hole, Martin Shaw;

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