Como as Ciências Ancestrais podem potencializar a inovação

Um olhar para o futuro a partir do legado

Baseado no 2º episódio do podcast Raízes da Inovação, com Caroline Amanda.

Em um mundo que acelera a cada dia, onde a tecnologia avança exponencialmente e as organizações buscam incessantemente eficiência e lucro, algo essencial tem sido deixado para trás: a conexão com os ciclos naturais e a sabedoria ancestral. E se a chave para soluções inovadoras e regenerativas estiver na ancestralidade e não apenas na modernidade? Convidamos você a explorar conosco essa perspectiva transformadora, que foi tema do Podcast Raízes da Inovação.

Baseando-se nos saberes de Caroline Amanda, cientista social, filósofa e fundadora da plataforma Yoni das Pretas, vamos descobrir como a integração da consciência cíclica e ancestral pode revolucionar as práticas organizacionais, tornando-as mais humanas, autênticas e alinhadas com a essência da vida.

A ancestralidade como fonte de tecnologias e ciências

A ancestralidade é, por si só, uma fonte rica de tecnologias e ciências. Sociedades milenares dos povos originários, sobretudo do Hemisfério Sul e da Ásia, desenvolveram formas sofisticadas de se relacionar nas esferas política, social, econômica e com os recursos naturais. Compreender como esses povos organizavam suas relações é essencial para potencializar a nossa conexão com a natureza cíclica. Essas sociedades não apenas viviam em harmonia com o meio ambiente, mas também desenvolveram sistemas avançados de conhecimento baseados na observação dos ciclos naturais. Ao integrar tais conhecimentos na cultura contemporânea, podemos repensar nossas práticas organizacionais e nos reconectar com o todo, potencializando a inovação que sustenta (e não subtrai) a vida, prática tão necessária no século XXI.

A importância de aplicar a experiência ritualística nas organizações

Um dos pilares das ciências e tecnologias ancestrais é a experiência ritualística. Ritualizar os processos, fases, inícios e fechamentos de ciclo é essencial.

Vivemos um descompromisso com a ritualização frente à rotina acelerada vigente no mundo contemporâneo, que contribui para a desconexão com o tempo natural, aumentando a ansiedade nas sociedades modernas. O Brasil, por exemplo, é um dos países mais ansiosos do mundo¹. A ansiedade é um descompasso em relação ao tempo e isso acontece porque a cultura predominante está conectada com o modus operandi voltado estritamente para o extrativismo da vida, seja de recursos naturais e do tempo de vida das pessoas.

Ao abrir espaço para a ritualização, as organizações podem melhorar a qualidade da entrega, deixando emergir as prerrogativas que impulsionam os resultados, que tratam das relações. A ritualização prevê cuidados simples como averiguar o estado emocional e anímico das pessoas em cada etapa e, assim, valorizar suas contribuições. Isso envolve reconhecer o momento de começar, avaliar o progresso e compreender como concluir, levando em conta as experiências e sentimentos dos envolvidos.

A ritualidade não é um elemento religioso, mas um recurso tecnológico basilar das ciências ancestrais que faz muita falta no contexto atual, onde se acelera o tempo - do áudio, da vida e se pulam etapas fundamentais.
– Caroline Amanda

Nossos antepassados valorizavam os ritos de passagem e as iniciações, compreendendo que cada fase tem sua importância para o desenvolvimento humano. Hoje, vemos pessoas recém-formadas em MBAs que já estão liderando grandes equipes. Essas pessoas podem ter um repertório técnico muito robusto, mas ainda não têm tônus para lidar com as complexidades das relações humanas. É necessário passar por processos rituais que as preparem adequadamente.

As ciências ancestrais devem, portanto, ser reverenciadas e reconhecidas como a principal fonte de reordenação e equilíbrio das relações intra-organizacionais.

O papel feminino na reconexão com os ciclos naturais

Historicamente, as mulheres tiveram uma conexão direta na decodificação da terra. Em várias sociedades, foram elas que identificavam quais ervas eram comestíveis, venenosas, serviam como remédio e quais os momentos adequados para cada uma. Elas respeitavam o tempo de cada movimento da natureza, espelhando em seus próprios corpos: menarca, gestação, pós-gestação, climatério e menopausa.

Quanto mais as organizações e a sociedade se distanciam desses corpos-territórios, que compreendem o cuidado com a vida reprodutiva, e não apenas com a vida produtivista; mais profunda é a desconexão com as tecnologias e ciências ancestrais que ainda reverberam na memória desses corpos.
– Caroline Amanda

A lógica vigente — patriarcal e colonial — é anti-vida cíclica, anti-vida orgânica, comprometida apenas com a vida sintética. Não se quer saber, por exemplo, de ter melancia apenas no verão; deseja-se melancia o ano inteiro. Não se respeita o tempo cíclico, mas sim um tempo linear, constante e de produção contínua. Isso é anti-vida e não é orgânico. A natureza e os corpos não são capazes de entregar isso sem se exaurir.

As organizações precisam acolher a ciclicidade econômica, reconhecendo que as oscilações fazem parte da natureza e organizando-se para isso. Essas oscilações não devem ser vistas como falência ou negativas, mas reconhecidas como parte natural dos processos.

Ao aplicar mesmo que apenas 1% das ciências ancestrais ao âmbito organizacional, é possível obter ganhos expressivos como tranquilidade, serenidade e sabedoria na condução dos encontros, gerando o que Antônio Bispo chama de confluência.

Circularidade intencional: oxigenando relações e potencializando resultados

Para muitos grupos sociais, o ritual é a única saída de sobrevivência, tendo a circularidade como um valor incontornável para a manutenção da saúde comunitária. No Brasil, por exemplo, se não fossem as rodas de samba, capoeira, jongo e candomblé, não teríamos assegurado nossa própria humanidade e dignidade enquanto sujeitos pensantes, criativos e complexos.

Ciclos e círculos, junto às suas ritualidades, permanecem vivos porque existem grupos originários que não sabem e não podem viver sem eles. Esses grupos dão a base para o que chamamos de ciências e tecnologias ancestrais. A ritualidade, para eles, não é performática, mas fôlego e oxigênio.

Nas organizações, é necessário levar esse "oxigênio ancestral" para promover vivências conectivas, gerando vínculos e possibilitando a autenticidade. Pessoas em ambientes que valorizam a circularidade expressam sua originalidade, vivem experiências genuínas e podem produzir inovação de fato.

Ninguém é inovador na mentira de uma cultura performática. A inovação vem da autenticidade.
Caroline Amanda

A circularidade simboliza a não hierarquia e a complementaridade de cada um. Ausência de hierarquia não significa a falta de referências em cada setor, tais como especialistas e pessoas responsáveis pelos resultados e contornos. Nos povos ancestrais há muita reverência pela senioridade e o tempo de vida. O mais velho é visto como ponto de partida, mediador de conflitos e centro do círculo, mas também faz parte do círculo.

Nas organizações, adotar dinâmicas circulares promove a comunicação de que todas as pessoas são importantes. Em ambientes estritamente lineares, onde uma voz vale mais do que a outra, muitas contribuições valiosas são perdidas porque as pessoas não se sentem aptas ou relevantes.

Ao organizar-se de forma circular, coloca-se uma intenção no centro do círculo. A partir disso, mobilizam-se os afetos em torno dela para gerar um plano de ação em que os afetos e a intenção sejam basilares na condução dos processos em relação ao propósito e aos resultados. ❝Em uma dimensão hierárquica, linear, não há intencionalidade, o foco está somente na meta a ser batida. Mas o campo intencional, que sustenta o propósito de bater a meta, em geral, passa batido.

Quando as pessoas se sentem contempladas, pertencentes e partes integrantes do processo, não há como não gerar vínculos genuínos e compromisso com os resultados. A circularidade com intenção catalisa vínculos e compromissos com os resultados de maneira poderosa.

A competição e a cooperação sob a ótica ancestral

Na visão dos povos primeiros, competição e cooperação existem dentro de limites que não rompem com a lógica divina e a soberania sobre todos os seres. Existe o entendimento de que não devemos aniquilar nenhum ser vivo, pois não somos seus criadores; nascemos já coexistindo com eles.

Os povos ancestrais têm a humildade de entender que, seja na cooperação ou competição, existe um limite onde a extinção nunca pode acontecer. Há dinâmicas predatórias, sim, mas que não ultrapassam o aceitável, sempre respeitando o espiritual, o metafísico e o legado a ser deixado para as próximas gerações.

As organizações modernas podem aprender com essa perspectiva, adotando práticas que não prejudiquem o todo para favorecer ganhos individuais. É possível competir e cooperar sem ultrapassar limites que comprometam a vida, a sustentabilidade e a harmonia coletiva.

Organizações cíclicas vs Organizações extrativistas: construção de legado ante o paradigma evolutivo

Os ambientes organizacionais contemporâneos refletem valores ocidentais que privilegiam o extrativismo e o descompromisso com a vida. As organizações muitas vezes tratam as pessoas como tratam a natureza: extraindo o máximo que podem oferecer de maneira insustentável e descartando-as quando não correspondem à velocidade e ao volume esperados.

Essa abordagem é insustentável. Seres vivos não podem ser tratados de forma extrativista ou descartados como coisas. É fundamental respeitar a ciclicidade como elemento de poder e potência, reconhecendo que cada fase da vida tem muito a oferecer. As organizações devem alinhar seus planos e sistemas operacionais para enxergar o que há de melhor nos territórios, corpos, pessoas e biografias.

Enquanto nossa máxima evolutiva se baseia em crescimento econômico, tecnológico e escalabilidade, os povos ancestrais não estavam interessados em evolução, mas sim na produção de legado.
Caroline Amanda

Eles buscavam garantir que seu tempo na Terra conferisse dignidade aos descendentes. Um exemplo marcante é a construção da Muralha da China, que levou diversas gerações para ser concluída. Esse monumento reflete a preocupação de deixar um legado duradouro, pensado para beneficiar futuras gerações.

Atualmente, há um descompromisso com quem virá depois de nós, pois muitos estão focados em "evoluir" em um único tempo de vida o que, em verdade, levaria várias gerações. Expandir a consciência para sustentar a responsabilidade de produzir legado é essencial. Não se trata de involuir ou evoluir, mas de criar condições para que as próximas gerações possam prosperar com dignidade.

Do "tempo é dinheiro" para o tempo orgânico

A ideia de que "tempo é dinheiro", popularizada por Benjamin Franklin², implica que o tempo de vida das pessoas deve ser aplicado na geração de lucro para as organizações. Quando as pessoas saem de férias ou tiram folgas, é um momento em que não é possível capturar o tempo de vida delas para a produção de lucro, criando um grande tabu em torno desse tema.

Nas experiências contemporâneas de home office, trabalho híbrido e remoto, essa questão se intensifica. Com a tecnologia, nosso tempo de vida está sendo sequestrado de forma sofisticada, voraz e tóxica, sob a ilusão de liberdade. Somos livres na aparência, mas, como disse Nina Simone³: ❝liberdade é não ter medo❞. Se estamos constrangidos ou temerosos de controlar nossos próprios horários, rotina, tirar férias, viver uma licença-maternidade ou cuidar de nossa saúde, estamos sendo controlados pelo medo.

O medo é um elemento de controle do tempo de vida das pessoas, contribuindo para a ansiedade que vivemos enquanto sociedade.❞
Caroline Amanda

O conceito de tempo sintético em oposição ao tempo orgânico, trazido por Antônio Bispo dos Santos⁴, nos ajuda a compreender essa desconexão.

O tempo sintético é linear, constante, em que não há pausas, buscando sempre o controle e a previsibilidade como recurso de gestão. Ele interessa estritamente ao lucro, à escalabilidade desenfreada e linear, negando a essência cíclica da vida. Este conceito de tempo favorece a desconexão com o mundo natural, enfatizando a percepção de separação. ❝Quem acredita que vai à natureza é alguém que está completamente descolado da experiência de autopercepção como ser sujeito em trânsito da natureza, pois todos somos a própria natureza em curso e em ação❞.

Já o tempo orgânico é aquele que respeita as pausas, reconhece a necessidade de oscilações na produção: ora mais altas, ora mais baixas. Permite que novas disponibilidades e disposições dos ambientes e das relações construam o que chamamos de inovação. Ele é espiral, circular, cíclico e prevê fases sem querer mensurar ou controlar todas as questões que surgem das relações humanas e da própria natureza.

As organizações devem desafiar-se a produzir resultados que valorizem a saúde, o bem-estar e a realização das equipes, além de resultados numéricos. O tempo orgânico permite que as relações humanas e a natureza se manifestem sem a necessidade de mensurar ou controlar tudo. É nesse tempo que a verdadeira inovação pode florescer.

A solução está na Emancipação Integrativa

O conceito de Emancipação Integrativa propõe a demolição de qualquer limitação da experiência humana e da vida em conexão com a natureza, tangível e intangível, visível e invisível, mas perceptível na dimensão sutil.

Somos seres integrais, e tudo o que nos compõe contribui para onde estivermos. Uma pessoa é simultaneamente mãe, gestora, esposa, artista, e todas essas facetas enriquecem sua atuação. Quando pensamos em ancestralidade, lembramos que estamos acompanhados por todas as pessoas que nos trouxeram à vida. Mesmo que alguém não compreenda isso, não significa que deixe de ser importante ou valioso.

A cultura ocidental tem o hábito de invalidar tudo o que não se domina, compreende ou sabe explicar.
Caroline Amanda

Os povos ancestrais, ao contrário, aceitam que o inexplicável pode existir, mesmo que não saibam explicar ou compreender plenamente; e não sentem a necessidade de extingui-lo por isso.

Nas organizações, incorporar a sabedoria de diferentes histórias e linhagens pode levar a um novo patamar de inovação. Se pudéssemos integrar o conhecimento que cada história familiar e ancestral tem a oferecer, estaríamos vivenciando a máxima experiência inovadora.

Não somos apenas indivíduos isolados, pois carregamos a soma dos sonhos e experiências de liberdade que nossos antepassados já vivenciaram. Os grupos minorizados, em especial, sempre imaginaram o mundo não como ele é, mas como ele deveria ser. Esse desejo pulsa interiormente em nós, através dos ancestrais que um dia vislumbraram aquilo que experimentamos hoje. Desejam, junto conosco, algo que ainda não existe, mas que acreditamos poder existir.

A ancestralidade e a dimensão metafísica espiritual são, portanto, um mandato para romper com tudo que é linear, sintético e superficial. Tudo que é anti-vida, anti-ritual, não tem mais espaço neste mundo❞. Somos o que somos em nossa inteireza, e onde estamos, tudo que nos compõe também está.

Colocando em prática

Integrar as Ciências Ancestrais nas organizações é uma necessidade urgente para construirmos um futuro onde a prosperidade e a inovação estejam alinhadas com a essência da vida. A sabedoria ancestral tem o poder de revitalizar e enriquecer nossas práticas, promovendo ambientes que valorizam o legado, a ritualização, a circularidade e a integralidade humana.

É tempo de questionarmos os paradigmas extrativistas que veem pessoas e natureza apenas como instrumentos de lucro. Ao reconhecer que cada fase da vida, cada história e cada ser enriquecem a coletividade, honramos os ciclos naturais e abrimos espaço para a verdadeira inovação — aquela que nasce da autenticidade e da conexão profunda com a vida.

Convidamos você a refletir sobre como esses princípios podem ser incorporados na sua rotina e na sua organização. A transformação começa com um compromisso de olhar além do óbvio, valorizar o intangível e acreditar na construção de legados que transcendem o tempo.

A mudança está ao nosso alcance. Sejamos agentes ativos na construção de um mundo onde a harmonia entre pessoas, organizações e natureza seja a base de tudo que fazemos.


Assista ao episódio completo do Podcast Raízes da Inovação, com Caroline Amanda:


Caroline Amanda é Cientista Social e Mestrada em Filosofia pela UFRJ, com pesquisas focadas em Práticas Integrativas e Complementares de Saúde (PICS), Mídias, Família, Cultura e Consumo Afrodiaspórico. Fundadora da plataforma de bem-estar e saúde íntima para mulheres, Yoni das Pretas, atua como terapeuta, mentora, escritora e palestrante, dedicando-se à promoção do bem-viver através da reconexão com saberes ancestrais.

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