Quero contar histórias que despertam para o que nós humanos fizemos e seguimos fazendo de errado

📷 Kelly Sikkema, Unsplash

Narrativas que reforçam padrões de consumo, sucesso, desenvolvimento, riqueza, que vinham sendo questionadas, ganham força. Se queremos insistir nesse caminho, precisamos estar conscientes dos impactos ambientais e sociais desses conceitos e nos responsabilizamos, de uma vez por todas.

Por Michele Oliveira 


Assistia ao noticiário de TV sobre as fortes chuvas em Florianópolis, em janeiro de 2025, e suas consequências para o trânsito - as águas de um rio invadiram as pistas de umas das principais rodovias da cidade -, quando a repórter pergunta:

— Secretário, uma das soluções seria a ampliação da tubulação de escoamento da água, certo? 

O que você acha? Se a sua resposta é sim, porque soa bem lógica no nosso jeito de pensar, o convite desse texto é exatamente para você.

Ouvi da pesquisadora Vanessa Andreotti, autora do livro Hospicing Modernity¹ (A modernidade em estado terminal - tradução livre), que nossos modelos educacionais deveriam endereçar negações. Como assim? E o que essas negações têm a ver com a pergunta da repórter? Vou me explicar. 

Vanessa traz alguns exemplos de negações que devemos observar desde quando pequenos e emoldurar num quadro, em nossas casas: 

  • Negação da violência sistêmica e cumplicidade em causar danos (refere-se ao fato de que nossos confortos, seguranças e divertimentos são subsidiados pela expropriação e exploração de pessoas e natureza em algum lugar que não perto da gente);

  • Negação dos limites do nosso planeta (o fato de que o planeta não pode sustentar crescimento e consumo exponenciais);

  • Negação de emaranhamento (nossa insistência em nos enxergarmos separados uns dos outros e da terra, em vez de enredados num metabolismo vivo mais amplo, e que é bio inteligente);

  • Negação da profundidade e magnitude dos problemas que estamos enfrentando.

A pergunta da jornalista segue o padrão de buscar soluções simplistas para algo complexo. O que Vanessa explica, se baseia no desejo de nos sentirmos bem, porque dá a falsa sensação de esperança de que tudo tem conserto. Uma excelente forma de escapar a dor e ao trabalho difícil de ter que olhar para a realidade, para a complexidade das situações que criamos. E esse agir é inconsciente, viu. 

O que a jornalista poderia ter perguntado - incorporando um pouco de complexidade ao cenário? Eu arriscaria algo nessa linha, para começar.

— Secretário, diante do projeto urbanístico e modelo de desenvolvimento que adotamos na cidade - seguindo outros semelhantes no mundo que desconsiderarm o ambiente natural no planejamento - seria o caso de tecer estratégias de regeneração, em vez de seguir com soluções caras e “cinzas”, como colocar tubulações maiores? A prefeitura discutiu, alguma vez,  a construção de jardins de chuva, trazendo o verde de volta para a cidade, ou a restauração de riachos - a técnica daylighting² que consiste em recuperar canais anteriormente enterrados em canos? 

Você alguma vez pensou nas cidades, em seus grandes desafios como inundações, deslizamentos, ilhas de calor, sob o aspecto de como elas foram construídas? O que existia antes de cimentarmos, asfaltarmos rios, solo, árvores? Sobre esse ponto da história, ninguém aqui tem força de ação. E nem podemos ser ingênuos de achar que ações como o Movimento Depave³, em Portland, será viável para despavimentar ruas, estacionamentos em nossas cidades, devolvendo a permeabilidade e vida ao solo - bem que gostaria, mas volto à realidade para escrever. 

O ponto de acupuntura são os territórios que habitamos hoje, com suas feiuras e belezas. No entanto, para não repetirmos os erros do passado, é urgente enxergá-los e como se materializaram a partir de formas de pensar, de sentir, de esperançar que nos trouxeram ao momentos atual de policrise, metracrise, permacrise, simplificação - escolha a sua nomenclatura, mas escolha

Para algumas pessoas, esse despertar para o que, como sociedade, construímos de errado, é uma dor insuportável. Uma colega uma vez me disse: 

— Ah, não. Prefiro nem saber o que tem nesses alimentos ou como são produzidos para não sofrer. 

Hoje, eu devolveria a ela: 

— Para não sofrer ou não se responsabilizar?

Vai que neste ponto do texto você esteja sentindo as alfinetadas do desconforto. Pois lhe digo, tudo pode ficar ainda mais desafiador. Além de enxergar o avesso das coisas, você vai precisar olhar para sua infraestrutura / musculatura interna. Suas fortalezas, seus rituais para não se deixar sucumbir pelo volume de ações que precisam ser feitas, nem pela  complexidade de movimentos envolvidos. Resumindo: Você tem que enxergar as feridas que fomos causando ao corpo da Terra e das pessoas, compostar o que já não faz sentido (amo esse termo), e seguir ainda mais forte. Está fácil viver nossos tempos (contém ironia).

Quando trago no título que quero escrever narrativas que despertam para o que nós humanos fizemos de errado, a intencionalidade é contar histórias, ter conversas, que despertem para o feitiço que nós mesmos nos colocamos. O feitiço da cegueira para o mistério, para o avesso das nossas formas de esperançar, pensar, relacionar. Se desejamos, em nossas células, criar novas relações, pautadas em respeito e vida, teremos que crescer. Virarmos adultas e adultos que se responsabilizam por suas escolhas e ações porque aceitam a dor de levantar o tapete e enxergar as mais feias, sujas, fedidas, poluentes, doentes, intoxicantes, contaminantes formas de nos relacionarmos que, um dia, achamos brilhantes. 

Ser um adulto, significa pra mim, viver alerta para as consequências, conhecer os custos do nosso jeito de viver. É duro amadurecer no mundo que construímos. O custo é quase insuportável. Não me admira nossa cultura parecer ter sido construída para nos manter distraídos, para postergar o encontro com as consequências até o último momento possível.
—Dougald Hine

Precisamos encontrar o espaço da força e da beleza no momento em que nos descobrirmos também emaranhados com tudo o que destrói o belo que sonhamos. Estou me esforçando, está desconfortável.

***
Em tempo, a Vanessa Andreotti desenhou em conjunto com outros profissionais o curso
Facing the Human Wrongs, disponível online 


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Michele é co-fundadora e sócia da Agência Fecunda.É especialista em Novas Narrativas, com estudos sobre visões de mundo pelo Gaia Education. Estudou e voluntariou no Schumacher College (UK) e é formada em Permacultura. Tem experiência em projetos ESG voltados para as temáticas da intergeracionalidade e geração de renda a partir da floresta em pé, no Cerrado. Atuou como jornalista por mais 20 anos em grandes emissoras de TV e também em comunicação empresarial..

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